domingo, 17 de abril de 2011

Rotina




Cabelos sujos amordaçados por um elástico velho, pés descalços, porta trancada, janela aberta, maço fechado, isqueiro sempre a procurar.
Todos os dias ela corria para as grades que a separavam da realidade, todos os dias a janela ficava ansiosa a espera de seja lá o que for, e ela também. Esperava que alguém a visse ali, tragando todos os desejos, planejando todos os próximos passos ou vendo o cigarro sumir lentamente por entre os dedos marcados pelo vício.
Queria ser vista por qualquer coisa, ao ouvir barulho de presença, corria, deitada e fingia o sono que sempre aparecia na hora errada.
Era azul, com listras vermelhas, era insana a garota viciada por martírios sem fim, escolha incessantes e solidão aparente.
Esmagava a chama, corria pro banheiro, escovar os dentes, lavar o rosto, cuidar da ferida recém formada, passar creme, desinfetar o ambiente com um perfume vulgar que sobrará de outras épocas.
Sentada pondo na tela todas as coisas que haviam passado pela sua cabeça, no momento exato em que o mundo parecia ter parado, que todos estavam de pestanas fechadas, e ali num cume e vazio quarto, dentro de uma janela que tinha mais alma que um cigarro inteiro, preservara-se um rancor muito bem alimentado.
Já aliviada e saciada, deitava e continuava sonhando uma realidade otimista, para no amanhecer lembrar-se que a janela continua ali a espera de outros contos nem tanto teus, mais sim meus.

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sutilidade entre a complexidade e a ambiguidade. ou um tiro no escuro (?)

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